Meio Ambiente

Perícia ambiental: contaminação de solo, água e passivos industriais

Em litígio ambiental, a disputa raramente é sobre a existência do contaminante — os laudos costumam concordar que ele está lá. A disputa é sobre de onde ele veio, quanto dele é atribuível a quem e se o valor de comparação aplicado era o correto. É nesses três pontos que a prova técnica decide o processo.

Em resumo

A perícia ambiental industrial se apoia em três pilares: comparar o resultado analítico com o valor orientador correto (Resolução CONAMA nº 420/2009), demonstrar o nexo causal entre a fonte e a contaminação — descartando fontes alternativas — e verificar se a norma aplicada era a vigente, o que em 2026 é especialmente sensível por causa da transição da ABNT NBR 10004.

Os três valores orientadores — e por que confundi-los invalida um laudo

A Resolução CONAMA nº 420/2009 estabelece critérios e valores orientadores de qualidade do solo e diretrizes para o gerenciamento de áreas contaminadas. Ela não trabalha com um número único, e sim com três referências distintas:

Valor O que significa Consequência prática
Referência de Qualidade (VRQ) Concentração natural da substância no solo daquela região, sem influência antrópica Serve de linha de base. Ultrapassá-lo não significa contaminação
Prevenção (VP) Limite acima do qual pode haver prejuízo às funções principais do solo Aciona monitoramento e controle de fontes; não caracteriza área contaminada
Investigação (VI) Concentração acima da qual existe risco potencial à saúde humana Caracteriza a área como suspeita/contaminada e obriga o avanço da investigação

O erro que mais se encontra em laudos é comparar um resultado com o Valor de Investigação quando o correto seria o de Prevenção — ou vice-versa, transformando um caso de monitoramento em alegação de área contaminada, ou o contrário. Como cada valor dispara uma consequência jurídica diferente, essa troca não é detalhe técnico: muda o desfecho.

No estado de São Paulo há uma camada adicional: a CETESB mantém sua própria lista de valores orientadores, revisada por decisão de diretoria — inclusive para alinhar valores de intervenção em água subterrânea aos padrões nacionais de potabilidade. Aplicar a lista federal onde vale a estadual (ou uma versão desatualizada de qualquer uma) é falha recorrente.

Como se investiga uma área contaminada

A investigação é progressiva por desenho: cada etapa só se justifica se a anterior indicou que vale continuar. Pular etapas é o atalho que mais compromete a validade do resultado.

  1. Avaliação preliminar. Histórico de uso da área, plantas, licenças, registros de armazenamento e entrevistas. Identifica as áreas suspeitas antes de qualquer furo no chão.
  2. Investigação confirmatória. Amostragem dirigida às fontes suspeitas identificadas na etapa anterior, para confirmar ou descartar a presença de contaminação.
  3. Investigação detalhada. Delimitação da pluma em extensão e profundidade, caracterização do meio físico (tipo de solo, sentido do fluxo da água subterrânea) e definição dos caminhos de exposição.
  4. Avaliação de risco. Verifica se existe receptor exposto — sem receptor e sem caminho de exposição, a concentração isolada não sustenta a mesma conclusão.

Uma amostragem só é representativa se posicionada em relação à fonte e ao fluxo. Amostra coletada a montante do fluxo da água subterrânea não prova nada sobre a pluma a jusante; malha regular em terreno com fonte pontual conhecida frequentemente "perde" a contaminação — e a ausência de detecção é então apresentada como ausência de contaminação, o que é uma conclusão diferente.

Resíduos: a transição da ABNT NBR 10004 termina em 31/12/2026

Este é o ponto mais sensível de qualquer laudo de resíduos produzido agora. A ABNT NBR 10004 foi revisada em 2024 e passou a ser dividida em duas partes — NBR 10004-1:2024 e NBR 10004-2:2024 —, a segunda criando o Sistema Geral de Classificação de Resíduos.

Versão de 2004 Versão de 2024
Classes Classe I (perigoso), Classe II-A (não inerte), Classe II-B (inerte) Classe 1 (Resíduo Perigoso), Classe 2 (Resíduo Não Perigoso)
Estrutura Norma única Duas partes, com Sistema Geral de Classificação de Resíduos
Vigência Aceita até 31/12/2026 Única válida a partir de 01/01/2027

Durante o período de transição, as duas versões convivem — e é exatamente por isso que a verificação importa. Um laudo que classifica um resíduo como "Classe II-A" não está necessariamente errado hoje, mas precisa declarar qual versão aplicou. Laudos que citam classes sem indicar a versão da norma, ou que misturam a nomenclatura antiga com a nova, comprometem a rastreabilidade da conclusão — e, depois de 2026, ficam simplesmente desatualizados.

Efluentes industriais

O lançamento de efluentes em corpos receptores é regido pela Resolução CONAMA nº 430/2011, que complementa e altera a Resolução CONAMA nº 357/2005. Ela fixa condições e padrões por parâmetro — e a análise pericial típica confronta o resultado do monitoramento com esses limites, verificando também o ponto de coleta, a frequência e a representatividade da amostra.

Em andamento: há consulta pública para revisão dos padrões de lançamento da CONAMA 430/2011. Ainda não há norma nova em vigor, mas processos longos devem acompanhar o desfecho — o mesmo cuidado que se aplica à transição da NBR 10004.

Responsabilidade: objetiva, e com ônus da prova invertido

Dois elementos jurídicos mudam completamente a função da prova técnica em matéria ambiental.

Primeiro, a responsabilidade civil por dano ambiental é objetiva (art. 14, §1º, da Lei nº 6.938/1981): dispensa demonstração de culpa ou dolo. Permanecem exigíveis, contudo, a conduta, o dano e o nexo de causalidade — e é aqui que a perícia decide, porque o nexo é matéria técnica, não jurídica.

Segundo, a Súmula 618 do STJ (outubro de 2018) firmou que a inversão do ônus da prova se aplica às ações de degradação ambiental. Na prática, cabe ao empreendedor demonstrar que não causou o dano. Isso converte a prova técnica de defesa em peça central: não basta questionar o laudo do autor, é preciso construir positivamente a hipótese alternativa — fonte diversa, contaminação pretérita, contribuição de terceiro, ou passivo anterior à ocupação da área.

Falhas metodológicas que mais comprometem um laudo ambiental

Perguntas frequentes

O que caracteriza uma área contaminada?

Tecnicamente, é a área onde se comprova a presença de substância química em concentração acima do Valor de Investigação definido pela Resolução CONAMA nº 420/2009, com potencial de risco à saúde humana ou ao meio ambiente. A resolução trabalha com três referências: Valor de Referência de Qualidade (o que é natural do solo local), Valor de Prevenção (limite para manter as funções do solo) e Valor de Investigação (acima do qual há risco potencial e a investigação deve avançar). Confundir esses três valores é um dos erros mais comuns em laudos.

Quais normas regem a classificação de resíduos no Brasil hoje?

A ABNT NBR 10004 foi revisada em 2024 e passou a ser dividida em duas partes: NBR 10004-1:2024 e NBR 10004-2:2024, esta última criando o Sistema Geral de Classificação de Resíduos. As antigas classes I, II-A e II-B foram substituídas por Classe 1 (Resíduo Perigoso) e Classe 2 (Resíduo Não Perigoso). Há período de transição: até 31 de dezembro de 2026 as versões de 2004 ainda podem ser usadas. Depois dessa data, apenas a nova norma vale — o que torna crítico verificar qual versão um laudo aplicou.

A responsabilidade por dano ambiental depende de culpa?

Não. A responsabilidade civil por dano ambiental é objetiva, nos termos do art. 14, §1º, da Lei nº 6.938/1981 — dispensa demonstração de culpa ou dolo. Ainda assim, permanecem necessários a conduta, o dano e o nexo de causalidade entre eles. Na prática pericial, é justamente o nexo causal que concentra a disputa técnica: provar que aquele contaminante veio daquela fonte, e não de outra.

Quem tem o ônus da prova em ação de dano ambiental?

A Súmula 618 do STJ, de outubro de 2018, firmou que a inversão do ônus da prova se aplica às ações de degradação ambiental. Na prática isso desloca para o empreendedor o encargo de demonstrar que não causou o dano — o que torna a qualidade da prova técnica produzida pela defesa determinante, e não acessória.

Como se investiga tecnicamente uma área contaminada?

A investigação é progressiva. Começa pela avaliação preliminar, que levanta o histórico de uso da área e identifica áreas suspeitas a partir de documentos, plantas e entrevistas. Avança para a investigação confirmatória, com amostragem dirigida às fontes suspeitas para confirmar ou descartar a contaminação. Se confirmada, segue para a investigação detalhada, que delimita a pluma de contaminação em extensão e profundidade e caracteriza o meio físico para subsidiar a avaliação de risco e a remediação.

Um laudo ambiental administrativo pode ser contestado tecnicamente?

Sim. Autos de infração e laudos de órgãos ambientais são atos administrativos com presunção relativa de legitimidade, que cede diante de demonstração técnica de erro. Os pontos que mais frequentemente sustentam a contestação são: malha de amostragem insuficiente ou mal posicionada em relação à fonte, comparação com o valor orientador errado, laboratório sem escopo acreditado para o ensaio, e conclusão de nexo causal sem descartar fontes alternativas de contaminação.

Quais normas regem o lançamento de efluentes industriais?

A Resolução CONAMA nº 430/2011, que dispõe sobre as condições e padrões de lançamento de efluentes e complementa e altera a Resolução CONAMA nº 357/2005. Ela define os limites por parâmetro para o descarte em corpos receptores. Há consulta pública em andamento para revisão desses padrões, e processos de longa duração devem acompanhar o desfecho.

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